Um amor ilimitado
24/07/2013

JJ Camargo*

Todas as pesquisas que tentaram estabelecer os limites do sofrimento humano esbarraram em variáveis imponderáveis quando havia afeto envolvido.

Os  modelos matemáticos e as projeções estatísticas  se esboroam quando o sentimento passa a ser um parâmetro significativo. Até porque podemos ter desempenho físico cronometrado, ou quociente de inteligência medido, mas nunca alguém conseguirá estipular o limite humano da afeição ou da maldade, só para ficarmos em sentimentos extremados e opostos.

Precocemente o cientista mais rígido descobre o quanto é inestimável e imprevisível, por exemplo, o que uma mãe pode suportar por seus filhos. Simplesmente porque não há como dimensionar o sentimento de quem considera razoável oferecer sua própria vida em troca da sobrevivência das suas crias.

No transplante de pulmão intervivos se utilizam dois doadores que são operados em sequência para que a parte de um dos pulmões de cada um deles vá substituir o pulmão inteiro do receptor.

A Malu, uma mulher miúda, foi  a segunda doadora para o transplante  de seu filho de 13 anos.

Logo depois despertou na UTI,  ávida de notícias: “Como ele está?”

Informada que estava tudo bem, outra pergunta: “E como eu estou?”

“Muito bem, deu tudo certo”

“Dr., eu posso sentar?” – “Claro.”

“Na cama?” – “Sim”.

“Mas se posso sentar na cama, eu posso sentar numa cadeira, e se posso sentar numa cadeira, nada impede que essa cadeira tenha rodas e eu possa ir até onde meu amadinho está, não é mesmo?”

O brilho no olho era tão intenso e havia uma energia tão incontestável naquele pedido, que ninguém se animou a contrariá-la e  assim, uma hora depois de despertar de uma grande cirurgia de pulmão, aquela brava criatura, sem tempo para essas queixas menores que fazem as pessoas comuns,  foi transportada com drenos e sondas, numa cadeira de rodas até box do isolamento onde começava a despertar seu caçula muito amado.

Se promovessem um leilão no bazar dos afetos, a figura daquela mãe, debruçada sobre o leito do filhote, chorando da mais pura emoção, com os lábios trêmulos colados na palma de uma mãozinha pequena e delicada, seria o meu lance símbolo do amor ilimitado. – Quem dá mais?

(*) Cirurgião torácico e Membro Titular da Academia Nacional de Medicina

Compartilhe este post!

Post by admin

Posts Relacionados