Transferência de culpa
02/04/2013

[JJ Camargo]

.O avanço tecnológico da medicina tem permitido resgatar a vida em situações antes inconcebíveis, mas ocasionalmente em condições deploráveis.

É verdade que muitas vezes, em atendimentos de urgência, se adotam inadiáveis medidas de ressuscitação para só depois se descobrir que não havia nada para ressuscitar.

Nesta situação, em que não há no horizonte nenhuma perspectiva de uma vida digna, é que se condena o uso de práticas que caracterizam o que se convencionou rotular como terapia fútil. Fútil, desapiedada e onerosa.

A supressão de procedimentos terapêuticos que teriam a única função de retardar a morte sem possibilidade de impedi-la, é o que se chama de ortotanásia.

Legisladores e religiosos estão de acordo que esta prática é, antes de mais nada, um gesto de compaixão.

Se tudo parece consensual, por que tanta discussão cada vez que um caso objetivo é trazido pela mídia, ou alguma família, dilacerada pelo sofrimento inconsequente, requer na justiça a aplicação desse direito de escolha?

Provavelmente porque no mais íntimo dos nossos corações, atrás daquele biombo onde se esconde a mais remota das esperanças, sempre haverá a crença no imponderável, ainda que todas as evidências digam o contrário.

E por mais que a racionalidade subjugue este sentimento, sempre poderá restar uma fagulha para recrudescer no futuro sob a forma do abominável sentimento de culpa.

A Idalina era uma diabética que alcançou 90 anos bem vividos, com uma família maravilhosa, e então teve um derrame que lhe devastou o cérebro.

Depois de três meses em terapia intensiva, sem nenhum sinal de recuperação, alheia a qualquer contato com o meio exterior, o médico foi questionado pelos familiares que, desesperançados e exaustos, ponderaram que mantê-la assim por mais tempo não faria nenhum sentido.

Todos de acordo, a insulina foi suspensa e uma semana depois acabou o sofrimento inútil. No convite para enterro havia um merecido agradecimento ao doutor, sempre solícito, disponível e solidário.

Três anos depois, uma filha da Idalina buscou indicação de um neurologista para o marido. Quando citado o nome do médico renomado, ela contestou: “Outro, por favor, esse deixou minha mãe morrer!”

Foi quando se soube que, de tanto roçar no travesseiro, o raio da fagulha tinha reacendido!

*J. J. Camargo é Cirurgião Torácico e Membro Titular da Academia Nacional de Medicina

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