Prevenção e diagnóstico precoce são armas contra o câncer
25/01/2012

Não é apenas impressão. O número de pessoas com câncer está aumentando no Brasil e no mundo. O Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) prevê uma ocorrência de cerca de 520 mil novos casos em 2012. Embora ainda seja uma enfermidade muito estigmatizada e temida, o câncer pode, em grande medida, ser evitado e, muitas vezes, curado. Mais de 60% das pessoas que desenvolvem a doença ficam curadas. A prevenção e o diagnóstico precoce podem fazer com que esse número chegue a 90%.

Nas últimas décadas, a fotografia da doença foi mudando, à medida que se transformaram também hábitos, indicadores sociais, a ciência e a medicina. E, por mais irônico que pareça, o motivo primeiro do aumento do número de casos de câncer no país está diretamente ligado ao fato de o Brasil estar se desenvolvendo.

“A expectativa de vida do brasileiro, na primeira metade do século passado, era de 39, 40 anos. E o maior fator de risco isolado para uma pessoa ter câncer é a sua idade. Quanto mais se vive, mais a célula se expõe aos fatores causadores do câncer”, explica o cirurgião oncologista Ademar Lopes, que dirige o Departamento de Cirurgia Pélvica do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo.

Ademar Lopes, que preside a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, detalha que, em países pobres, onde as pessoas morrem precocemente por problemas como Aids ou infecções, há menos chances de se ter câncer, já que se vive menos.

Mas e o que é um câncer? Na verdade câncer é o nome usado para designar um conjunto de mais de cem doenças caracterizadas pela proliferação descontrolada de células, o que leva à formação de um tecido anormal – o tumor.

De acordo com Ademar Lopes, cerca de 10% dos cânceres são hereditários. O restante é adquirido ao longo da vida, pela exposição a agentes causadores da doença, que podem ser físicos (como raios solares e radiação nuclear); químicos (como os derivados do tabaco) ou biológicos (como o vírus da hepatite B e do papiloma humano, HPV).

Nesse sentido, a incidência da doença está intimamente relacionada aos hábitos de vida. Estudos dão conta, por exemplo, que cerca de 30% de todos os casos de câncer estão associados ao hábito de fumar. Já se sabe também que a falta de atividades físicas, a obesidade e a ingestão excessiva de álcool são fatores de risco para desenvolver a enfermidade.

De acordo com a estimativa divulgada pelo Inca para 2012, mais de 257 mil homens devem desenvolver a doença no ano que vem. Entre eles, os tipos mais comuns serão os cânceres de pele não melanoma (63 mil novos casos), de próstata (60 mil), pulmão (17 mil), cólon e reto (14 mil) e estômago (13 mil).

Já em relação às mulheres, deverão ser diagnosticados mais de 260 mil casos, a maioria de câncer de pele não melanoma (71 mil), mama (53 mil), colo de útero (18 mil), cólon e reto (16 mil) e pulmão (10 mil).

“Se a pessoa fuma e bebe, aumenta o risco de câncer de pulmão, laringe, bexiga; uma dieta rica em gordura eleva a chance de ter câncer de mama, próstata e endométrio; a exposição excessiva ao sol faz crescer as chances de desenvolver o câncer de pele”, relaciona Lopes, sinalizando a principal arma contra a doença: a prevenção.

Segundo o médico, o tratamento do câncer tem evoluído bastante. A doença hoje é tratada de forma multidisciplinar, ou seja, envolvendo diversas áreas, e buscando menores efeitos colaterais.

“Há uma associação de armas terapêuticas. Muitas vezes, associamos cirurgia com radioterapia; em outras, unimos até cirurgia, radioterapia e quimioterapia. A cirurgia e a radioterapia tratam o tumor no seu local. A quimioterapia age sobre células que estão na circulação ou escondidas em algum órgão”, detalha o cirurgião, para quem a “oncologia moderna se baseia em um bom planejamento de tratamento multidisciplinar”.

Conforme dados do Inca, na década 70, seis em cada dez pacientes com câncer morriam até cinco anos depois do diagnóstico. Hoje, Ademar Lopes – que tratou do câncer do ex-vice-presidente José Alencar – aponta dados que demonstram que a doença já não é mais um bicho de sete cabeças.

Alguns médicos já afirmam que a tendência é que mesmo alguns cânceres mais agressivos se tornem doenças crônicas, como a hipertensão e a diabetes, com as quais o paciente pode conviver durante um longo período.

“Posso dizer que já estamos curando em torno de 60% dos casos de câncer. O maior segredo de tudo isso é que, se você fizer um diagnóstico precoce da doença, você pode curar 90% dos casos. E você ainda vai gastar menos e não vai mutilar ninguém”, alerta.

Para fazer esse diagnóstico o mais cedo possível, ele afirma que é necessário ter uma população melhor informada sobre a enfermidade, um sistema de saúde bem estruturado e médicos bem formados.

O cirurgião avalia que o Brasil tem as mesmas condições de tratar o câncer que os melhores centros do mundo. “O grande problema é que nem toda a população tem acesso à tecnologia que está disponível hoje. É preciso ampliar o acesso e consolidar um sistema de saúde bem estruturado, que faça chegar o melhor (tratamento) até a população menos favorecida. E isso não vale só para o câncer, mas para o problema de saúde como um todo”, diz.

Lopes destaca que já há vários estudos que indicam que os resultados do tratamento são superiores, quando o paciente se trata em instituições especializadas ao invés de em hospitais gerais. “Nas instituições especializadas existem protocolos terapêuticos onde as condutas são padronizadas por aquilo que é a melhor evidência para tratar a doença. É um dado importante”, conta.

Questionado sobre a formação de oncologistas no país, ele afirma que há, aqui, excelentes instituições, nas áreas de clínica, cirurgia e radioterapia, por exemplo. “Temos bons centros de formação, que precisam ser multiplicados, porque esse é um país grande, temos quase 200 milhões de habitante”, destaca.

O médico afirma também que, tão importante quanto formar oncologistas, é ensinar oncologia na graduação, para que médicos de outras áreas consigam orientar pacientes. Ele defende que a oncologia deveria ser uma disciplina obrigatória na grade curricular de todas as faculdades de medicina.

“Porque esse médico que não vai ser oncologista, pode ser um difusor da importância do diagnóstico precoce. Por exemplo, se você for uma senhora de 50 anos e for a um oftalmologista, ele vai examinar o seu olho, mas não custa nada perguntar ‘a senhora já fez uma mamografia? Tem algum probleminha na pele?’ Então é esse tipo de médico que, mesmo não sendo um especialista, pode difundir essas informações e encaminhar para um especialista”, analisa.

O caso Alencar

A estimativa do Inca foi divulgada pouco depois de o ex-presidente Lula ter anunciado que está com um câncer de laringe. A doença atingiu, no último ano, várias personalidades, como o ator Reynaldo Gianecchini e o presidente da Venezuela Hugo Chávez. O fato de todos eles terem tornado pública a doença é considerado por alguns especialistas como importante para ajudar a tirar todo o estigma que envolve a enfermidade.

O ex-vice-presidente José Alencar, que faleceu em março deste ano, depois de 13 anos de tratamento contra o câncer, também optou por divulgar as diversas fases do seu tratamento médico. Desta forma, ajudou a mostrar à população que é possível, por exemplo, trabalhar, apesar da doença. E também trouxe o tema do câncer para a discussão, sempre em tom otimista.

O médico Ademar Lopes lembra que depois de já ter se submetido a várias cirurgias para tratamento de câncer, um dos tumores de Alencar voltou. “O filho dele foi aos Estados Unidos e consultou um colega que indicou a cirurgia, mas não quis ele mesmo fazê-la. Perguntado por que, ele disse que não gostaria de trazer um paciente de longe para ser mal sucedido lá. O risco de Alencar morrer na cirurgia era muito alto, porque se tratava de um procedimento de alta complexidade, em um homem de quase 80 anos, que só tinha um rim e problemas cardiológicos”.

Alencar foi encaminhado então para o doutor Ademar, que realizou o procedimento apesar dos riscos, porque não havia alternativa para o ex-vice. “Alencar não é o tipo de paciente que acha que vai morrer. Ele enxerga uma pequena janela de sobrevivência e aceita fazer tudo por ela”, afirmou o médico, após a cirurgia, em janeiro de 2009.

Apesar do quadro delicado, José Alencar viveu por mais dois anos e dois meses. “Foi um aumento do tempo e da qualidade de vida muito importantes. Valeu a pena correr aquele risco”, contata o médico.

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