Os Herdeiros do Sofrimento [parte 2]
21/11/2012

[J. J. Camargo]

Para saber como começou essa história, leia Os Herdeiros do Sofrimento [parte 1] >>>

Com uma doença disseminada, sem nenhuma expectativa de resposta a tratamentos, o desenlace do meu amigo foi uma jornada de sofrimento.

Quando o Zé Luiz finalmente morreu, o destino dos indigentes era a vala comum no cemitério da Santa Casa.

Fui me despedir da mãe dele que, sozinha, velava o corpo numa das capelas do hospital.

Ela então me perguntou o que iam fazer com o corpo, e sem coragem de contar, respondi com  outra pergunta: “ O que a Sra. gostaria que fizessem?”

O rosto dela se iluminou quando me disse: “Meu marido que morreu de câncer e meu outro filho, assassinado por uma gangue, estão enterrados lá em Canoas, bem perto da  minha casa. Se eu pudesse, colocava o Zé ao lado deles e assim, duma vez só, já rezava pelos três!”

Decidi que o Zé, por nossa amizade, merecia aquilo!

A alegria da  mãe na Kombi da funerária não combinava com a modéstia do caixão quando partimos rumo a Canoas no menor féretro de que já participei.

Ventava muito no cemitério e enquanto o coveiro, assobiando baixinho, colocava o reboco final na tampa do sepulcro, o motorista impaciente advertia que devíamos nos apressar porque um temporal vinha chegando.

Quando deixamos a mãe no cruzamento dos trilhos, a pobre criatura, de cabeça muito branca e com uma maciez nas mãos que só as mulheres muito velhas têm, apertou minhas bochechas entre elas e disse: “Me prometa que você nunca vai mudar!” Prometi.

Ao entrarmos na freeway, começou a chover. O motorista comentou que tinha sido uma benção escapar de uma chuvarada daquelas num cemitério miserável, de chão batido.

Sem ânimo para uma conversa vazia, concordei. Aquela tinha sido realmente uma tarde para não esquecer.

*J. J. camargo é colunista e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre

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