O primeiro presidente do CILAD foi um brasileiro
19/11/2013

São Paulo, 1945. Escândalo no recentemente inaugurado Hospital das Clínicas. O novo Chefe da Divisão de Dermatologia, Prof. João de Aguiar Pupo começa a internar doentes de lepra nas salas do nosocômio (1). As autoridades sanitárias estão atestadas de uma legislação anacrônica que data do Congresso Internacional de Lepra de Bergen de 1902 com a nefasta política do isolamento obrigatório de todo paciente com doença de Hansen (2). Uma vez realizado o diagnóstico e independentemente de sua gravidade, estes pacientes deviam viver no temido sistema de leprosários, rede de hospitais-colônias separados do resto da sociedade que constituíam um verdadeiro “estado paralelo” (3).

O Dr. Aguiar Pupo, cuja tese de doutoramento de 1913 abordava a “Histopatologia da Lepra”, conhece profundamente as últimas teorias imunobiológicas da hanseníase. Junto a seu Mestre Eduardo Rabello e outros colegas da América Latina, tinham identificado os tipos polares lepromatoso e tuberculoide e confirmado o tipo indiferenciado inicial, este último proposto pelo Prof. Latapí no México. Não todas as formas contagiam. É a menos contagiosa das doenças infecciosas. Os problemas médicos muitas vezes são superados pela conotação social de malefício bíblico do termo pejorativo “leproso” que degrada e envergonha o doente e sua família. O Dr. Aguiar Pupo propõe denominar a lepra, hanseníase ou doença de Hansen para contribuir a desterrar o preconceito que o primeiro nome inspira especialmente no Brasil (4).

Não há muito tempo, o patologista alemão Domagk salvou sua filha de uma estreptococcia injetando-lhe um corante vermelho que tinha experimentado em camundongos: a sulfona. Seus derivados se ensaiam em infecções bacterianas durante a Segunda Guerra Mundial e logo depois começam a se aplicarem na lepra com resultados promissórios. É nessa oportunidade quando o Dr. Aguiar Pupo apóia a produção das sulfonas em sua própria terra (1,5).

A troca epistolar entre os dermatologistas de fala espanhola e portuguesa se acelera e confirma estas observações, porém precisam um marco científico para expor suas experiências. A oportunidade chega depois da guerra, em 1948, quando se reinicia o congresso internacional de Lepra. A sede do Vº Congresso é na Habana – Cuba, por primeira vez na América Latina, onde assistem médicos de 34 países.

Aí é onde se adota a Classificação Pan-americana como Classificação internacional e é ali onde na sessão de 11 de abril se funda o Colégio Ibero-Latino-americano de Dermatologia (CILAD), projeto desejado durante anos pelos dermatologistas de ambos os lados do Atlântico (6-8).

O Dr. Aguiar Pupo é eleito por ampla maioria o primeiro Presidente do CILAD. É acompanhado na Comissão Diretiva pelos Dres. Humberto Cerrutti (Secretário Geral), Bráulio Sáenz, José Gay Prieto e Marcial I. Quiroga (Vice-presidentes).

Esta comissão promove a troca de trabalhos científicos nas publicações das associações colegiadas, criam-se bolsas de aperfeiçoamento de especialistas em países de Ibero – América. Esta febril atividade se reflete nos periódicos e boletins das Sociedades que integram o Colégio. O Dr. Aguiar Pupo preside o Primeiro Congresso Ibero-Latino-americano de Dermatologia que tem lugar no Rio de Janeiro em setembro de 1950, sentando as bases de um dos eventos científicos mais importantes da especialidade que continua até nossos dias (7).

O acionar do Dr. Aguiar Pupo traspassa a dermatologia: chega a ser três vezes Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde implementa o sistema de Residência Médica, introduz disciplinas como genética e pesquisa científico-estatística e funda o instituto de Medicina Tropical. Como sanitarista impulsiona obras como os Hospitais Santo Ângelo, Cocais, Pirapitingui e Aimorés, assim como é promotor de centros de águas termais.

Os tratados de Dermatologia perpetuam seu nome em capítulos como Leishmaniase onde aperfeiçoa a classificação clínica de Rabello, as primeiras prescrições de penicilina em sífilis, ou as detalhadas descrições anátomoclínicas de paracoccidioidomicose, uma de cujas manifestações é conhecida por seu epónimo: “estomatite ulcerosa moriforme de Aguiar Pupo” (9-12).

É presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia e membro honoris de muitas outras instituições científicas.
Seus contemporâneos o descrevem com um ar majestoso que inspiravam seus cabelos brancos, um coração de caridade perante a miséria da natureza humana e grande intuição. Certa vez, um estudante de Odontologia decide ingressar no curso de Medicina. O procedimento é dificultoso e é preciso um documento original que a primeira faculdade se recusa a devolver. Não é possível a troca de curso. O jovem bate em várias portas sem resposta e finalmente se dirige ao Diretor Aguiar Pupo. Este analisa a situação e ordena a inscrição sob sua responsabilidade. O estudante se chama Sebastião Sampaio e chegará com os anos a suceder o Prof. Aguiar Pupo na Carteira de Dermatologia (13).

Aposentado obrigatoriamente pela lei, o Prof. Aguiar Pupo prossegue com suas pesquisas e atividades científicas. No VIII Congresso Ibero-Latino-americano de Dermatologia em El Salvador é homenageado em ocasião da celebração das Bodas de Prata do CILAD. A partir dos 87 anos se ocupa da direção e redação da revista Hansenologia Internationalis com assinatura em mais de 100 países. Aos 90 anos, em cama, com o marca-passo apenas implantado, ainda planeja trabalhos e pouco antes de morrer recebe uma noticia com satisfação: o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos acaba de adotar oficialmente o termo “Hansen´s Disease” (14).

Dr.Dante Chinchilla
Dr.Carlos Fernando Gatti

 

BIBLIOGRAFIA

1. Rotberg, A. Aguiar Pupo e a profilaxia da hanseníase. An Bras Dermatol 1980; 55: 214- 215.
2. Terencio de las Aguas, J. Consideraciones histórico-epidemiológicas de la lepra em América. Med Cutan Iber Lat Am 2006; 34: 179 – 194.
3. Nogueira Monteiro Y. Prophylaxis and exclusion: compulsory isolation of Hansen’s disease patients in São Paulo. Hist. cienc. saude-Manguinhos 2003; 10: suppl.1.
4. Rabello F E. João de Aguiar Pupo: do homem que conheci ao patriarca da hansenologia – Um testimunho. An Bras Dermatol 1980; 55: 214.
5. Pérgola F, Okner O. La Medicina Actual. En su: Historia de la Medicina. Desde el origen de la humanidad hasta nuestros días. Buenos Aires: Edimed, 1986, p. 385 – 394.
6. Colegio Ibero-Latinoamericano de Dermatología (CILAD). Historia, Reglamentos, Directorio. Buenos Aires: CILAD, Mayo 1987: 248.
7. Gatti CF, Chinchilla D. Libro de Oro, Historia Ilustrada del CILAD. Med Cutan Iber Lat Am 2005; 33 (Supl. 1).
8. Arenas R. El Colegio Ibero-Latinoamericano de Dermatología (CILAD). En: Galimberti R, Pierini A, Cervini B. Historia de la Dermatología Latinoamericana. Buenos Aires: Comité Organizador del XXI Congreso Mundial de Dermatología, 2007, p. 441- 443.
9. Ramos de Oliveira M. Aguiar Pupo e a Faculdade de Medicina. An Bras Dermatol 1980; 55: 213.
10. Ancona Lopez A. Aguiar Pupo e a leishmaniose. An Bras Dermatol 1980; 55: 216.
11. Da Silva Lacaz C. Professor João de Aguiar Pupo e sua contribução para o estudo da paracoccidioidomicose. An Bras Dermatol 1980; 55: 215 – 216.
12. Belda W. João de Aguiar Pupo – Sanitarista. An Bras Dermatol 1980; 55: 216 – 217.
13. Sampaio S. Aguiar Pupo e a Dermatologia Brasileira. An Bras Dermatol 1980; 55: 213.
14. Rotberg A. Name changes reflect trends. Int J Lepr Other Mycobact Dis. 1982 Mar;50(1):117-8.

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