Curado da hanseníase, paraibano ajuda doentes a terem vida melhor
18/05/2015

Quando tinha 40 anos, em meados de 2002, José Augusto da Silva Lima descobriu que tinha hanseníase, doença crônica, infectocontagiosa, que atinge pele e nervos periféricos podendo levar a incapacidades físicas. Cerca de doze anos depois, curado, José Augusto dedica seu tempo para produzir calçados e utensílios que auxiliam outras pessoas com a doença a levarem uma vida com mais qualidade, a despeito das sequelas, sociais e físicas, deixadas pela hanseníase. Sozinho, ele confecciona de 20 a 30 pares de calçados adaptados por mês em uma pequena sala no Hospital Clementino Fraga, no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, que são distribuídos gratuitamente para pessoas que se recuperam da doença.

A hanseníase mudou a vida de José Augusto e consequentemente fez com que ele mudasse, para melhor, a vida das pessoas que compartilharam do mesmo sofrimento, como ele mesmo conta. “Eu fui contaminado e ‘contagiado’ pela hanseníase. Depois de sofrer com a doença, eu criei motivação para buscar todo tipo de informação e ajudar as pessoas que também passaram pelo que eu passei”, comentou. Os calçados produzidos por José Augusto evitam que a perda de sensibilidade nos pés cause lesões.

“Há casos em que o paciente pisa em um prego, não sente a dor, e só percebe que está cortado quando vê a poça de sangue. Outros andam arrastando os dedos no chão e chegam para o tratamento com as pontas dos dedos em estado crítico. Os calçados ajudam na pisada, evitam que ocorra esse tipo de problema. Parece pouco, mas o impacto em quem ficou com sequelas da hanseníase é imenso”, explica.

Além da perda de sensibilidade nos pés, o atrofiamento nos dedos das mãos é outro efeito comum causado pela hanseníase. Isso acontece porque o bacilo causador da doença afeta diretamente os nervos do paciente. Mesmo após a cura, algumas consequências da doença podem impedir que alguém já recuperado tenha uma vida normal. O agricultor Givanildo Monteiro de Barros, de 38 anos, um dos beneficiados com o calçados feitos por José Augusto, relata que atividades simples do cotidiano, como escovar os dentes, são prejudicadas com a doença.

“A palmilha adaptada me ajuda a caminhar e não causar pressão no dedão do pé. Até para o meu trabalho na roça, com a enxada, ajuda. Depois que a gente tem a doença, tem que ter um cuidado redobrado. No início eu não dava muita atenção a esses cuidados e passei a sofrer por isso. Agora eu tomo conta de tudo, olho o meu corpo todo para saber se tem alguma coisa errada”, relatou.

Conforme levantamento feito pela Secretaria de Estado da Saúde (SES) da Paraíba, até abril de 2015, 968 pessoas passavam por tratamento para curar a hanseníase, dos quais 581 casos foram diagnosticados em 2014, e 152 casos novos apenas neste ano. Uma campanha educativa foi promovida pelo governo estadual em janeiro deste ano para alertar a população dos sinais e sintomas iniciais da doença. Ainda de acordo com a SES, uma campanha de alerta deve ser feita em outubro em escolas de 50 cidades paraibanas indicadas pelo Ministério da Saúde como prioritárias.

As campanhas informativas, para José Augusto Lima, são o melhor caminho para diminuir o número de casos e aumentar a qualidade de vida das pessoas que são infectadas pela doença. “A gente vê que houve um avanço na questão da informação. Até um tempo atrás, há algumas décadas, as pessoas tratavam a doença com preconceito. Os dados e os estudos sobre a doença eram mínimos, pouco divulgados. Hoje há uma preocupação dos poderes públicos com a doença, mas pouco interesse da população em saber o que é a hanseníase. É um dever de todo mundo se informar, quebrar essa barreira, melhorar as condições de quem teve que vencer a doença”, concluiu.

Sequelas sociais
As marcas deixadas no corpo afetam não somente a realização de tarefas diárias, mas também o convívio em sociedade. A desinformação sobre a forma de contágio e tratamento da hanseníase geram um preconceito que, segundo José Augusto Lima, pioram a recuperação do paciente. Muitos se isolam, outros são afastados pelas pessoas mais próximas.

“Quando minha família descobriu que eu tinha a doença, me isolaram dentro de casa. Eu passei a ter uma vida separada do restante da casa. Minha vida acabou. Naquela época as informações sobre a hanseníase eram bem menos difundidas. Até o próprio nome hanseníase não era usado. A doença era tratada como lepra e nós como leprosos. É preciso ter muita força para superar os problemas do corpo e da mente”, relembrou. Segundo José Augusto, menos de 10% da população mundial desenvolve a doença, que é transmitida quando uma pessoa doente e sem tratamento expele o bacilo, que fica no ar e pode contaminar pessoas suscetíveis. A Hanseníase teve a cura encontrada em 1985.

Recursos limitados
O projeto tocado por José Augusto da Silva Lima depende da ajuda financeira do governo estadual da Paraíba e das doações da ONG Netherlands Hanseniasis Relief (NHR). Com o dinheiro repassado, José Augusto montou a oficina no espaço cedido pelo hospital público Clementino Fraga e compra a matéria-prima que se transformam nos calçados especiais e nas adaptações feitas em sapatos levados pelos pacientes em tratamento.

A verba permite que sejam produzidos de 20 a 30 pares de calçados e feitas, em média, 50 adaptações de calçados comuns por mês, um número, que de acordo com José Augusto, seria muito maior caso houvesse mais incentivo. Segundo Augusto, dos 15 profissionais paraibanos especializados para confeccionar esse tipo de sapato adaptado, apenas ele permaneceu na Paraíba. Além dele, a fisioterapeuta Geísa Campos também auxilia diretamente no trabalho de melhora de qualidade de vida dos pacientes com hanseníase no Clementino Fraga.

“A produção dos calçadas dependem exclusivamente de mim. No caso de ter mais pessoas trabalhando, mais investimento, a produção mensal seria maior. Até porque o material passou a atender não só pacientes de hanseníase, mas também de AVC [Acidente Vascular Cerebral] e diabetes. Neste caso, mais pessoas seriam beneficiadas”, explicou.

 

Fonte: G1

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