A difícil escolha de Sofia
14/01/2013

Recentemente tive a oportunidade de participar como consultor da reportagem de capa da revista Veja Nacional (LEIA A REPORTAGEM) sobre os benefícios da vitamina D para a saúde e a palpitante questão da prescrição dos filtros solares. Há décadas que um dos cânones sagrados da dermatologia é a orientação estrita aos pacientes do uso dos filtros solares, em todas as situações, como o grande aliado na chamada “atitude de fotoproteção”. Esta é a base da vitoriosa Campanha Nacional de Prevenção ao Câncer da Pele que a Sociedade Brasileira de Dermatologia organiza a quase duas décadas e que, inquestionavelmente, salva muitas vidas.

Eu mesmo editei um livro-texto sobre câncer de pele há 10 anos, conjuntamente com o Prof. Sinésio Talhari e o saudoso Prof. René Garrido Neves, defendendo esta posição inquestionável. Até hoje este livro permanece como a publicação nacional mais ampla sobre o assunto. No entanto, tudo na vida muda e se transforma. É natural que isto aconteça com a ciência e a dermatologia. Recentes estudos têm demonstrado que o mais grave dos cânceres de pele, o melanoma, apresenta um forte componente genético e que a exposição ao sol não é absolutamente o único fator envolvido. Os conhecimentos sobre os demais cânceres de pele que são mais comuns, o carcinoma basocelular (principalmente) e o espinalioma, também mudaram e evoluíram.

A radiação solar continua a ser o principal vilão, mas outras evidências sugerem uma forte conotação genética e a participação de outros fatores. Além disto, faltam dados inquestionáveis de que exposições solares curtas, mesmo que intensas, podem estar claramente relacionadas ao câncer de pele da mesma forma que as exposições crônicas e/ou repetidas. Sempre prevaleceu a concepção de que, “na dúvida, é melhor desencorajar a exposição solar, mesmo que eventual”. Acontece que temos um outro grande problema relacionado com esta questão: os índices de baixa de vitamina D (hipovitaminose D) na população do mundo todo são alarmantes e o Brasil não é exceção. Quase 50% das pessoas analisadas, segundos alguns estudos, têm demonstrado estas alterações nos exames e o principal aliado no aumento dos níveis de vitamina D é justamente a exposição solar. Cerca de 20 minutos, duas vezes por semana, já são suficientes para corrigir o problema.

As fontes naturais de vitamina D em alimentos são poucas e caras e a reposição oral da vitamina D, se não for bem conduzida, pode aumentar demais os níveis sérios de cálcio e gerar falência renal.

Aí entra a “Escolha de Sofia”. Como no filme, a decisão não é das mais fáceis. As pessoas mais idosas parecem sintetizar menos a vitamina D com o tempo, mesmo tomando sol adequadamente, e uma das principais causas de morte eles decorre de complicações relacionadas à osteoporose, que podem ser aliviadas com níveis adequados da vitamina D. Perdi minhas duas avós, já nonagenárias, nestes últimos anos exatamente desta maneira! Ambas tiveram fraturas ósseas relacionadas à osteoporose, desenvolveram pneumonias com o tempo, e faleceram.

Estamos muito preocupados com o câncer de pele, mas ele pode ser diagnosticado e retirado com cura na maioria dos casos. Nem sabemos ao certo se curtas exposições solares duas a três vezes por semana, mesmo em idosos,  têm efeito carcinogênico tão sério. A osteoporose, por sua vez, é uma realidade que mata indiretamente milhares de idosos no nosso país, todos os anos.

Não estou sugerindo a suspensão da fotoproteção nem nada parecido! Acho, sim, que é hora de nos fazermos algumas perguntas e isso, ao meu ver, é completamente saudável.  Será que não está na hora de revermos nossos conceitos? Será que a fotoproteção, como temos advogado, não está se transformando em heliofobia (medo patológico do sol) em nós mesmos? Será que não estamos tratando mais as nossa incertezas do que as nossas certezas?

Omar Lupi

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