“Doutor, eu tenho herpes”: o livro mais difícil de todos
14/03/2013

[Omar Lupi]

Durante mais de 20 anos tenho me dedicado à Dermatologia, na universidade e no consultório, em um trabalho diário que adoro exercer. Até hoje entro quase que diariamente em sala de aula para treinar os alunos de Medicina e os residentes em Dermatologia a reconhecerem as lesões de pele e saber tratá-las. Me lembro quando tudo começou. Corria o ano de 1993, em algum dia ensolarado e quente do início de março. Tinha ingressado no mestrado em dermatologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e precisava definir a minha linha de trabalho. Entrei na sala do saudoso Prof. Antônio Carlos Pereira Jr. para lhe perguntar sobre o melhor caminho a tomar e fui recebido pela sua voz firme me dizendo: “Chegou em boa hora, meu rapaz. Acabei de ter uma discussão com o Prof. Sérgio Carneiro sobre o real potencial do herpes genital em ser transmitido por via sexual. Já tenho a sua linha de investigação. Você vai estudar o herpes em toda a sua plenitude!”.

Se eu soubesse o longo caminho que me esperava após aquelas palavras talvez não tivesse aceitado a incumbência. Não imaginava nada tão trabalhoso, árduo e complexo. Talvez tenha entendido a suas palavras de uma forma muito literal quando ele me falou em “estudar o herpes em toda a sua plenitude” mas o fato é que, 20 anos depois, é isto que faço diariamente. Foram 4 teses pessoais nesta linha de pesquisa, as de mestrado, doutorado, pós-doutorado e livre-docência, além de mais de 10 teses de orientandos em diversas instituições de ensino superior no Brasil. O estudo do herpes me levou a publicar livro-texto sobre infecção herpética (2000), apresentar trabalhos e conferências em diversos congressos e instituições no Brasil e no exterior, me radicar nos Estados Unidos por quase 2 anos no projeto de uma nova vacina antiherpética, tudo isto para melhor “estudar o herpes em toda a sua plenitude”. Dois outros livros publicados no exterior, um sobre manifestações cutâneas e mucosas das viroses (2010) e outro sobre dermatologia tropical (2006), em que me responsabilizei pelas viroses tropicais, são produto direto daquela conversa de tantos anos atrás. Por fim, novo livro sobre as infecções causadas por todos os vírus da família Herpes, incluindo aí o herpes zoster, foi publicado em 2010. Este trabalho permeia toda a minha vida profissional e me faz desafiar novos limites. Aquelas palavras de tantos anos atrás me deram as maiores realizações profissionais da minha vida e os momentos de maior vicissitude também.

No entanto, um grande desafio ainda permanecia por ser vencido. Sentia uma enorme vontade de escrever não só para o público médico mas para todas as pessoas tão necessitadas de informação e conhecimento atualizado. Não sabia se seria capaz de me livrar de tantos anos de linguajar técnico e, ao mesmo tempo, passar as informações de forma agradável, educativa e com uma leitura leve. Será que daria certo? Meu primeiro movimento neste sentido foi idealizar o Instituto Protetores da Pele no ano de 2011. Me incomodava o fato de que quase nada havia sobre dermatologia, voltado para o público em geral, e que fosse ético e atualizado. Os médicos, as vezes, tem esta tendência de olharem somente para dentro de si mesmos. O sucesso imediato do Instituto me incentivou a iniciar esta série de livros e o primeiro tema não podia ser outro: Herpes!

Foi também o livro mais difícil de todos que já escrevi ou, pelo menos, aquele em que mais emprestei a minha alma. Hoje, vinte anos depois, não posso mais apartar a discussão acadêmica entre os Prof. Antônio Carlos e Sérgio Carneiro pois ambos já se foram do nosso convívio. Mas recebi deles um sonho e tenho lutado muito para transformá-lo em realidade. Shakespeare já disse que nós somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos. Se isto é mesmo verdade, a publicação deste livro faz com que tenhamos hoje, vivo dentro de nós, todos os sonhos do mundo.


Diretor Científico do Instituto Protetores da Pele

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