Alheio à crise, Hospital da Gamboa tem alas adotadas e renasce
06/08/2014

No alto de uma ladeira, o centenário Hospital da Gamboa vive entre o passado de enfermarias do século XIX, abertas para combater a febre amarela, e o que há de mais moderno para atender pacientes em especialidades como dermatologia e ginecologia. O renascimento do hospital acontece após médicos renomados tomarem a iniciativa de adotar diferentes alas. A motivação veio no rastro de uma mudança administrativa ocorrida com a crise na Santa Casa da Misericórdia, de cuja rede de assistência a unidade faz parte.

— Durante a crise que a Santa Casa teve, muitos setores precisavam continuar atendendo, mas não tinham condições de fazê-lo. Isso despertou a atenção para a nossa unidade. Os setores precisavam cumprir suas obrigações, e nós tínhamos infraestrutura para isso — afirma o administrador do hospital, Sylvio Lemgruber, que vê a revitalização como resultado de uma mudança na gestão.

INDEPENDÊNCIA NA CRISE DA SANTA CASA

A crise na Santa Casa começou no meio do ano passado, quando fraudes em cemitérios administrados pela instituição foram denunciadas. O então provedor da entidade, Dahas Zarur, foi afastado do cargo, e a investigação no Ministério Público ainda não foi concluída.

A unidade da Gamboa é ligada à sede do Centro, mas tem independência financeira. A forma de trabalho é a mesma adotada pela Santa Casa e consiste em parcerias com médicos renomados, que investem em áreas do hospital e podem utilizá-las para fazer convênios com faculdades. Essa colaboração, denominada de “irmão da Santa Casa”, é hereditária e só pode ser desfeita se a diretoria da instituição intervier.

— Mostramos que temos uma boa gestão, e isso atraiu parcerias — diz Lemgruber.

GESTÃO E REVITALIZAÇÃO DO PORTO ATRAEM INVESTIMENTOS

A mudança na administração do hospital e a revitalização da região do Porto também despertaram os investidores para o potencial do local. Levado para a unidade por seu pai (o ginecologista Ivan Lemgruber), o atual administrador do hospital, Sylvio Lemgruber, recebeu a missão de implantar uma gestão empresarial.

— Não existia uma estrutura básica. Criamos um setor de pessoal, uma tesouraria, e passamos a buscar dar as mínimas condições para o atendimento. Coisas fundamentais que não existiam — diz ele.

Os primeiros anos da década de 1990 foram estáveis, com o convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS). Mas, com a redução dos valores da tabela elaborada pelo governo, a sobrevivência do hospital passou a ficar ameaçada. Foi necessário firmar novas parcerias e cobrar por consultas e cirurgias.

— Hoje, trabalhamos de duas formas: através de agendamento feito pelo SUS, sobre o qual não temos gerência, e cobrando preços acessíveis. São valores de custo para um serviço de qualidade muitas vezes superior ao que se vê no sistema privado — afirma o diretor médico do hospital, Arthur Bastos.

NOVOS PROFISSIONAIS NA EQUIPE

Algumas das áreas do hospital, no entanto, não têm convênio com o SUS.

— Temos uma excelente área de ortopedia que não atende os pacientes da rede pública, porque ela já tem o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into). Em outras áreas, não há interesse nosso no convênio. Porém, em todas elas existe a preocupação de cobrar um valor que não faça o hospital perder, mas que seja viável para o paciente — diz o diretor.

As melhorias passaram a aparecer, e novos profissionais se juntaram a outros que já atuavam na unidade, como a família Niemeyer, que cuida da área de neurocirurgia, e os Lemgruber, que gerenciam a parte de ginecologia.

O cirurgião plástico Ivo Pitanguy é um dos últimos a fazer parte do time do hospital. O médico atuava na sede da Santa Casa da Misericórdia, mas, com a crise na instituição, passou a exercer suas atividades na Gamboa.

O departamento de dermatologia, coordenado por Sérgio Costa e Silva, do Instituto de Pós-Graduação Dermatológica, multiplicou o número de pacientes do setor no hospital.

— Quando desenvolvemos a parceria, só tínhamos um médico da área, que não atendia regularmente. Atualmente, é um dos setores com mais pacientes na unidade — afirma Lemgruber.

‘ESTA REGIÃO SERÁ UMA VITRINE’

Localizado ao lado da Cidade do Samba e em frente à Baía de Guanabara, agora sem o Elevado da Perimetral atrapalhando a vista, o hospital já se articula para se beneficiar da revitalização da região do Porto. Para quem visita a unidade, é notória a diferença entre os setores apadrinhados e outros, como a recepção e a administração, que não se encontram em bom estado. A ideia é reformar essas áreas. Para isso, o hospital já conseguiu o apoio de duas empresas, mas ainda precisa de uma terceira e continua em negociação. O projeto já está pronto, mas as obras, por enquanto, ainda não têm data para começar.

— A revitalização da área está atraindo diversos investidores. As pessoas passaram a ver que esta região será uma vitrine. Ficou mais fácil vender este renascimento do hospital junto com o renascimento do Porto. Estão vendo que está ruim, mas que este será “o lugar”— conta Lemgruber.

Quando o dinheiro sair, o projeto será tocado pela mesma equipe responsável pela restauração do Teatro Municipal e da Casa da Moeda.

Atualmente, o Hospital da Gamboa atende em 19 especialidades e não conta com serviço de emergência.

FONTE: O Globo

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