A Enfermagem na Dermatologia
25/07/2012

[Maria Helena S. Mandelbaum]

Prezados amigos,

tendo por base a  nossa experiência como enfermeira especialista, atuando há mais de 30 anos na área da dermatologia,  e como coordenadora cientifica da SOBENDE ao longo destes 10 anos, gostaria de compartilhar algumas informações e experiências com os profissionais que pretendem se especializar nesta área e os que já atuam, mesmo não sendo especialistas, nos cuidados com a pele e no manejo de feridas.

A dermatologia é uma das especialidades mais antigas da medicina , tendo a SBD – Sociedade Brasileira de Dermatologia, completado 100 anos em 2012. Como sempre referia o nosso saudoso professor Sebastião de Almeida Prado Sampaio, “esta parceria entre médicos e enfermeiras é tão antiga quanto a humanidade em sua trajetória sobre a Terra”. Embora já consolidada como especialidade médica, a dermatologia é ainda uma das áreas emergentes de atuação da enfermagem no Brasil , sendo uma das especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Enfermagem.

[Leia o artigo do Dr. Omar Lupi sobre a atuação da SOBENDE]

Dados epidemiológicos demonstram que os agravos dermatológicos representam um dos grandes problemas de saúde publica no Brasil, sendo ainda uma das principais razões para a procura de consultas ambulatoriais, em clínicas privadas e em serviços públicos (SBD, 2006). Esta elevada demanda por atenção, em todos os seus níveis, implica na necessidade de formação de recursos humanos especializados na enfermagem, para atuar em sincronismo com as políticas publicas, dentro de uma visão multiprofissional , interdisciplinar, e que contemple a integralidade das ações, no processo saúde doença , na área da dermatologia.

Com as significativas mudanças no perfil da população brasileira constata-se uma profunda reorganização do sistema de saúde,  com crescente busca por melhor qualidade de vida, exigindo-se para  isto a criação de centros especializados para o atendimento da saúde da pele de crianças, adultos e idosos.

Até 2005 existia apenas 1 instituição de ensino com oferta de  curso de pós graduação  para enfermagem em dermatologia no país. Em 2009, foram identificados pelo menos 15 diferentes propostas de cursos, nas variadas regiões do país, por meio de diversos tipos de parcerias e com propostas pedagógicas e conteúdos heterogêneos. Preocupada com esta delicada situação, a SOBENDE tem discutido este assunto em seus fóruns e desde 2007 tem se reunido com representantes da SOBEST- Associação Brasileira de estomaterapia, buscando ações conjuntas para o esclarecimento dos profissionais de enfermagem e medidas regulatórias junto a órgãos competentes da enfermagem, saúde e educação

A SOBENDE, partindo do pressuposto de que a formação de um especialista é processo continuo, que não se circunscreve a  realização de um curso de pós graduação na área,  tornou  publico os  critérios e normas que considera fundamentais para  nortear o planejamento destes cursos de especialização e ao mesmo tempo,  o sistema de concessão e revalidação de titulo de especialista em enfermagem em dermatologia. Todas estas ações visam contribuir para  o desenvolvimento permanente de  profissionais comprometidos com   o cuidado integral às pessoas,com base no  conhecimento científico, por meio de ação técnica engajada e postura ético-politica de construção de um olhar especializado  sobre o processo  saúde–doença-cuidado da pele ao longo do ciclo vital.

A enfermagem em dermatologia tem longa trajetória histórica no Brasil enquanto prática cotidiana de cuidados com a pele das pessoas e atuação dos enfermeiros em programas de atenção básica em dermatologia, como: hanseníase, leishmaniose, pênfigo foliáceo, psoríase, entre outros agravos dermatológicos, em todos os níveis de atenção à saúde. Tais práticas permitiram o acúmulo de um conjunto significativo de saberes, consolidados em muitos manuais de treinamento e protocolos institucionais tendo sido especialmente utilizados pelos enfermeiros de saúde publica, que foram os primeiros especialistas a atuar neste campo do conhecimento, principalmente na “dermatologia sanitária”.

A grande evolução ocorrida  na dermatologia como especialidade médica a partir dos  anos 90 incorporou uma série de novas descobertas,  recursos e tecnologias para os cuidados com a pele, surgindo então a necessidade de profissionais com conhecimentos para atuar nestes novos cenários, visando atender estas novas demandas por parte da população.  A profunda mudança nos conhecimentos sobre a pele e seus mecanismos de recuperação geram a cada dia novas abordagens que implicam numa atuação multiprofissional, levando a conseqüente busca pela especialização por parte dos enfermeiros. Constata-se ainda a crescente necessidade de educação da população para a prevenção, promoção da saúde e recuperação dos agravos dermatológicos, reduzindo-se assim os altos índices de mortalidade, assim como, a cronicidade de processos que poderiam ter maior resolutividade com um trabalho integrado entre médicos,  enfermeiros e os demais profissionais da área da saúde.

A educação de crianças e jovens, uma das áreas em que a enfermagem tem forte tradição em todo o mundo, adéqua-se de maneira singular nesta área, pois sabemos hoje que os altos índices de câncer de pele, doenças sexualmente transmissíveis, e o recrudescimento da hanseníase, tem como uma de suas causas, a falta de educação da população para a saúde, a prevenção e a busca precoce por tratamento.  Os enfermeiros, com seu expertise nesta área, podem ser parceiros dos médicos dermatologistas, atuando em escolas, creches e na comunidade, nestas ações de educação para a prevenção.  Outro aspecto importante, é a aderência do paciente, fundamental nos processos crônicos.  Com a alta demanda e a maior dificuldade em dedicar mais tempo às consultas e orientações ao paciente, os dermatologistas podem contar a a atuação do enfermeiro nas orientações pós consulta, nas interconsultas e nas consultas de enfermagem, para reforço das orientações, acompanhamento do tratamento médico, e com isso, aumentar a aderência dos pacientes, como já comprovam experiências realizadas na Europa e Estados Unidos.

A profunda mudança nos conhecimentos sobre a pele e seus mecanismos de recuperação geram a cada dia novas abordagens que implicam numa atuação multiprofissional, levando a conseqüente busca pela especialização por parte dos enfermeiros.

A enfermagem é uma profissão regulamentada por lei, tem um código de conduta ética que estabelece seus limites de atuação, e todo este aparato legal se estende para as especialidades.  Há limites precisos e bem estabelecidos, o que faz com que haja profundo respeito pelo campo de todos os profissionais que fazem parte da equipe de saúde, e isto pode ser comprovado ao longo da história da enfermagem brasileira e mundial.  Conforme pesquisa publicada pelo Instituto Gallup, em 2011, a enfermagem foi considerada, pelos profissionais de saúde e pelos pacientes, a “profissão mais confiável e que mais respeita os colegas e pacientes “ ( Gallup Institute, 2011) .

Este avanço tem gerado também o surgimento de novas propostas de intervenção por parte da enfermagem, por meio da sistematização da assistência de enfermagem como estratégia importante para a melhoria do cuidado especializado.

O surgimento de novos recursos tecnológicos para a prevenção e tratamento de feridas, com especial destaque para os chamados “curativos inteligentes” ou avanços tecnológicos, despertaram também um grande interesse dos diversos profissionais de saúde para o cuidado com feridas, exigindo por sua vez, adequada qualificação dos enfermeiros para a avaliação, o planejamento dos cuidados e o estabelecimento de protocolos para indicação e utilização adequada destas  tecnologias ( Monetta, 2002)

Motivados por tais interesses, surgem os grupos de interesse clínico, cujo objetivo inicial era a troca de experiências e realização de  encontros científicos para disseminar novos conhecimentos e práticas  relacionados aos cuidados com a pele, mas principalmente, desenvolver novos referenciais para o cuidado com feridas dos mais diversos tipos.

Considerando que conforme a Resolução COFEN 389/2011, a Enfermagem Dermatológica compreende  os cuidados de enfermagem  com a pele e  com feridas, é fundamental que os cursos preparem de forma adequada os profissionais para atuar com competência na área de cuidados da pele e tratamento de feridas, o que significa que este componente curricular deve fazer parte dos referidos cursos, como parte integrante desta especialidade da enfermagem.

Maria Helena S. Mandelbaum

Vice presidente e Coordenador cientifico da SOBENDE
Especialista em enfermagem em dermatologia pela SOBENDE

Compartilhe este post!

Post by admin

Posts Relacionados